2008/06/08


REFLEXÕES DE FIDEL
A política cínica do império

NÃO seria honesto que eu guardasse silêncio depois do discurso de Obama, na tarde de 23 de maio, perante a Fundação Cubano-Americana, criada por Ronald Reagan. Escutei-o, assim como fiz com o de McCain e o de Bush. Não guardo rancor a sua pessoa, porque não foi responsável pelos crimes cometidos contra Cuba e contra a humanidade. Se o defendesse, faria um enorme favor a seus adversários. Por isso, não temo de criticá-lo e de expor com franqueza meus pontos de vista sobre suas palavras.

O que afirmou?

"No decurso de minha vida houve injustiça e repressão em Cuba, e nunca, durante minha vida, o povo conheceu a verdadeira liberdade; nunca, durante duas gerações, o povo de Cuba experimentou uma democracia… não temos visto eleições durante 50 anos… Nós não vamos suportar essas injustiças, todos nós, juntos, vamos conseguir a liberdade de Cuba," disse aos anexionistas e prosseguiu: "Essa é minha palavra. Esse é meu compromisso. …é hora de que o dinheiro estadunidense faça com que o povo cubano seja menos dependente do regime de Castro. Vou manter o embargo…"
O conteúdo das palavras deste forte candidato à presidência dos Estados Unidos, isenta-me da necessidade de explicar o porquê desta reflexão.

O próprio José Hernández, um dos dirigentes da Fundação Cubano-Americana, que Obama elogia em seu discurso, era o proprietário do fuzil automático calibre 50, com mira telescópica e raios infravermelhos apreendido por acaso com outras armas mortíferas, durante sua transportação pelo mar rumo à Venezuela, onde a Fundação planejou assassinar quem está escrevendo isto, numa reunião internacional, realizada em Margarita, estado venezuelano de Nueva Esparta.

O grupo de Pepe Hernández desejava voltar ao pacto com Clinton, que o clã de Mas Canosa traiu, dando, mediante a fraude, a vitória a Bush em 2000 porque tinha prometido assassinar Castro, assunto que todos aceitaram com vontade. São conluios políticos próprios do sistema decadente e contraditório dos Estados Unidos.
O discurso do candidato Obama pode se converter numa fórmula de fome para a nação, as remessas como esmolas, e as visitas a Cuba como propaganda para o consumismo e o modo de vida insustentável que o sustenta.

Como vai encarar o gravíssimo problema da crise alimentar?

Os grãos devem ser distribuídos entre os seres humanos, os animais domésticos e os peixes, que ano após ano são cada vez mais pequenos e mais escassos nos mares excessivameente explorados pelos grandes navios de pesca de arrastão, que nenhum organismo internacional foi capaz de deter. Não é fácil produzir carne a partir do gás e do petróleo. O próprio Obama superestima as possibilidades da tecnologia no combate à mudança climática, embora esteja mais ciente que Bush dos riscos e do escasso tempo disponível. Poderia consultar Gore, que também é democrata e deixou de ser candidato, porque sabe muito bem ao ritmo acelerado que aumenta o aquecimento. Seu mais próximo adversário político embora não candidato, Bill Clinton, perito em leis extraterritoriais como a Helms-Burton e a Torricelli, pode prestar assessoria num tema como o bloqueio, que prometeu pôr fim a ele e nunca o cumpriu.

Como foi que se expressou em seu discurso de Miami o que, sem dúvida, do ponto de vista social e humano, é o mais avançado candidato à presidência nos Estados Unidos?

"Durante 200 anos" ―disse― "os Estados Unidos esclareceram que não vamos suportar a intervenção em nosso hemisfério, contudo, devemos reparar que existe uma intervenção importante, a fome, as doenças, o desespero. Do Haiti ao Peru podemos fazer melhor as coisas e devemos fazê-lo, não podemos aceitar a globalização dos estômagos vazios…" Magnífica definição da globalização imperialista: a dos estômagos vazios! Devemos agradecer-lhe isso; mas há 200 anos, Bolívar lutou pela unidade da América Latina e há mais de 100 anos, Martí entregou sua vida combatendo contra a anexação de Cuba aos Estados Unidos.

Então, qual a diferença entre o proclamado por Monroe e o que, dois séculos depois, proclama e reivindica Obama em seu discurso?

"Teremos um enviado especial da Casa Branca, como o fez Bill Clinton" ―expressou quase ao concluir― "…vamos ampliar o Corpo de Paz e vamos pedir a mais jovens que façam que nossos vínculos com as pessoas sejam mais fortes e, talvez, mais importantes. Podemos forjar o futuro, e não deixar que o futuro nos forje." É uma bela frase, porque admite a idéia, ou pelo menos o temor, de que a história faz os personagens e não o contrário.

Os atuais Estados Unidos não têm nada a ver com a declaração de princípios de Filadélfia, formulada pelas 13 colônias que se revoltaram contra o colonialismo inglês. Hoje constituem um império gigantesco, que não passava naquele momento pela mente de seus fundadores. Porém, nada mudou para os indígenas e os escravos. Os primeiros foram exterminados à medida que a nação se estendia; os segundos continuaram sendo objeto de leilões nos mercados ―homens, mulheres e crianças― durante quase um século, apesar de "todos os homens nascerem livres e iguais", como afirma a declaração. As condições objetivas no planeta foram favoráveis para o desenvolvimento desse sistema.

Obama em seu discurso conferiu à Revolução Cubana um caráter antidemocrático e carente de respeito à liberdade e aos direitos humanos. É exatamente o argumento que, quase sem exceção, empregaram as administrações dos Estados Unidos para justificarem seus crimes contra nossa pátria. O bloqueio, de per si, é um genocídio. Não desejo que as crianças norte-americanas sejam educadas sob essa vergonhosa.
A revolução armada em nosso país talvez não tivesse sido necessária sem a intervenção militar, a Emenda Platt e o colonialismo econômico que ela trouxe à ilha.

A Revolução foi produto da dominação imperial. Não nos podem acusar de tê-la imposto. As mudanças verdadeiras puderam e deveram surgir nos Estados Unidos. Seus próprios operários, há mais de um século, lançaram a reivindicação de oito horas, filha da produtividade do trabalho.

A primeira coisa que os líderes da Revolução Cubana aprendemos com Martí foi acreditar e agir em nome de uma organização fundada para levar a cabo uma revolução. Sempre dispusemos de faculdades prévias e, já institucionalizada, fomos eleitos com a participação de mais de 90% dos eleitores, como é costume em Cuba, e não a ridícula participação que muitas vezes, como nos Estados Unidos, não atinge 50% dos eleitores. Nenhum outro país pequeno e bloqueado como o nosso teria sido capaz de resistir tanto tempo, com base na ambição, na vaidade, no engano ou nos abusos de autoridade, a um poder como o de seu vizinho. Afirmá-lo constitui um insulto à inteligência de nosso heróico povo.

Não duvido da aguda inteligência de Obama, de sua capacidade para polemizar e de seu espírito de trabalho. Domina as técnicas de comunicação e está acima de seus adversários na disputa eleitoral. Observo, com simpatia, sua esposa e suas filhas, que o acompanham e animam todas as terças-feiras; sem dúvida, é um quadro humano agradável. Contudo, sou obrigação a fazer algumas perguntas delicadas, ainda que não pretenda respostas, apenas confirmá-las.

1º — É correto que o presidente dos Estados Unidos ordene o assassinato de qualquer pessoa no mundo, seja qual for o pretexto?

2º — É ético que o presidente dos Estados Unidos ordene torturar outros seres humanos?

3º — É o terrorismo de Estado um instrumento que deve utilizar um país tão poderoso como os Estados Unidos para que exista paz no planeta?

4º — É boa e honorável uma Lei de Ajuste que é aplicada como punição a um só país, Cuba, para desestabilizá-lo, embora custe a vida a crianças e mães inocentes? Se for boa, por que não é aplicado o direito automático de residência aos haitianos, dominicanos e demais cidadãos de países do Caribe, e se faz a mesma coisa com os mexicanos, centro-americanos e sul-americanos, que morrem como moscas no muro da fronteira mexicana ou nas águas do Atlântico e do Pacífico?

5º — Podem os Estados Unidos prescindir dos imigrantes, que cultivam vegetais, frutas, amêndoas e outras delícias para os norte-americanos? Quem vai varrer suas ruas, prestar serviços domésticos e fazer os trabalhos piores e menos remunerados?

6º — São justas as batidas policiais contra os indocumentados, que atingem, inclusive, crianças nascidas nos Estados Unidos?

7º — É moral e justificável o roubo de cérebros e a contínua extração das melhores inteligências científicas e intelectuais dos países pobres?

8º — O senhor afirma, como lembrei no início desta reflexão, que seu país advertiu, há tempo, as potências européias que não admitiria intervenções no hemisfério, e ao mesmo tempo enfatiza a exigência desse direito, reclamando também o de intervir em qualquer parte do mundo com o apoio de centenas de bases militares, forças navais, aéreas e espaciais distribuídas no planeta. Pergunto-lhe, é essa a forma em que os Estados Unidos exprimem seu respeito pela liberdade, democracia e ireitos humanos?

9º — É justo atacar de surpresa e preventivamente sessenta ou mais obscuros cantos do mundo, como os chama Bush, seja qual for o pretexto?

10º — É honorável e sensato investir milhões de dólares no complexo militar industrial para produzir armas que podem liquidar várias vezes a vida na Terra?


O senhor deveria saber, antes de julgar o nosso país, que Cuba, com seus programas de educação, saúde, esportes, cultura e ciências, aplicados não só em seu próprio território, mas também em outros países pobres do mundo, e com o sangue derramado em solidariedade a outros povos, apesar do bloqueio econômico e financeiro e das agressões de seu poderoso país, é uma prova de que se pode fazer muita coisa com muito pouco. Nem a nossa melhor aliada, a URSS, foi permitido traçar nosso destino.~

Para cooperar com outros países, os Estados Unidos só podem enviar profissionais ligados à disciplina militar. Não pode fazê-lo de outro jeito, porque carece de número suficiente de pessoal disposto a sacrificar-se por outros e a oferecer apoio significativo a um país com dificuldades, apesar de em Cuba termos conhecido e terem cooperado conosco excelentes médicos norte-americanos. Eles não são os culpados porque a sociedade não os educa em massa nesse espírito.

A cooperação do nosso país nunca a sujeitamos a requisitos ideológicos. Oferecemo-la aos Estados Unidos quando o furacão Katrina bateu duramente a cidade de Nova Orleans. Nossa brigada médica internacionalista leva o nome glorioso de Henry Reeve, um jovem nascido nesse país que lutou e morreu pela soberania de Cuba na primeira guerra de nossa independência.

Nossa Revolução pode convocar dezenas de milhares de médicos y técnicos da saúde. Pode convocar, também em massa, professores e cidadãos dispostos a irem a qualquer canto do mundo, para qualquer nobre propósito. Não para usurpar direitos nem conquistar matérias-primas.

Nas pessoas de boa vontade e disposição há infinitos recursos que não se guardam nem cabem nas arcas de um banco. Não emanam da política cínica de um império.

Fidel Castro Ruz
25 de maio de 2008
22h35

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