2006/06/09


Fórum Social Mundial

A agenda do FSM e a luta contra o Império
por Marco Aurélio Weissheimer
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O Fórum Social Mundial nasceu em 2001 como um contraponto a Davos. De lá para cá, construiu uma agenda própria e começou a formular propostas para uma nova ordem global. Esse movimento assume um crescente carácter de luta contra a política imperial dos Estados Unidos.
Uma brevíssima história do Fórum Social Mundial poderia ser contada tomando como ponto de partida o ano de 1998, com a derrota do projecto do Acordo Multilateral sobre Investimentos (AMI), e, logo em seguida, em 1999, com o êxito das manifestações de Seattle contra a reunião de cúpula da Organização Mundial do Comércio (OMC). O AMI foi uma iniciativa dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), iniciada nos anos de 1990 e que teve sua negociação suspensa devido, entre outros factores, a constantes desacordos entre seus membros, principalmente no que se refere a temas como nacionalização, excepção cultural, desregulamentação, propriedade intelectual e segurança. Seattle foi um ruidoso desmentido das teses dos defensores do fim da história.
Foram duas derrotas inesperadas para os defensores da globalização neoliberal, que pregavam o aprofundamento da desregulamentação económica em todo o mundo, com ampla liberdade de circulação de capitais.
Animado por essas importantes vitórias, um conjunto de movimentos sociais de vários países começou a discutir a necessidade de realizar um encontro internacional para se contrapor ao Fórum Económico Mundial de Davos, que reúne os ideólogos do actual modelo de globalização. Nascia, assim, o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, um movimento internacional por outra forma de globalização. Um movimento que não parou de crescer.
A capital gaúcha foi escolhida como sede do FSM em função das políticas de participação popular implementadas pelas administrações petistas na cidade. A primeira reunião do Fórum Social Mundial foi marcada pela ideia de estabelecer um contraponto a Davos. O sucesso foi tamanho que, já no ano seguinte, o carácter anti-Davos começou a ser substituído por uma agenda própria, de carácter prepositivo, que iria se internacionalizar e se aprofundar nos anos seguintes. A internacionalização do Fórum
Em 2001 e em 2002, os organizadores e participantes do FSM trataram de, como observou o jornalista Ignácio Ramonet, criar “uma reunião paralela simétrica, mas de sinal político inverso”, ao Fórum Económico Mundial, que todos os anos reúne, em Davos, na Suíça, os “donos do mundo”, preocupados em aumentar seus lucros e negócios sem levar em conta os custos políticos, sociais, ecológicos e culturais. O lema “Outro mundo é possível” ganhou repercussão e múltiplos significados em todo o mundo, surpreendendo aqueles que identificavam o novo movimento como uma nuvem passageira que iria se dissipar rapidamente no ar. Mas, ao invés de se dissipar, o FSM acabou se espalhando no ar, o que ficaria evidenciado em suas edições seguintes, em 2003 (mais uma vez em Porto Alegre), e, em 2004, em Mumbai, na Índia. A internacionalização do Fórum foi aumentando a cada ano, incorporando crescentemente novos temas e agentes sociais.
Em 2003, a crise política internacional gerada pelos atentados de 11 de Setembro de 2001 em Nova York e a iminente invasão do Iraque pelos Estados Unidos impuseram uma agenda prioritária ao FSM: a luta contra a guerra e pela paz. A incorporação desse tema não se deu apenas por um carácter conjuntural. Ficava cada vez mais evidente a relação entre o actual estágio do sistema capitalista internacional e a lógica da guerra e do unilateralismo como mecanismo de resolução de conflitos. A militarização da agenda política das nações mostrava-se como a outra face da globalização neoliberal. Deste modo, lutar por um “outro mundo possível” significa, entre outras coisas, lutar contra a política unilateral e imperialista comandada pela maior potência do planeta, os EUA, e por seus aliados. Em 2003, milhões de pessoas saíram às ruas em todo o mundo para protestar contra a guerra e contra a transformação da “guerra ao terrorismo” em uma guerra pelo controle do mundo.
Para dar maior densidade e articulação política a essa luta, o Fórum Social identificou como uma tarefa estratégica o aprofundamento de seu carácter internacional. Foi assim que, em 2004, saiu de Porto Alegre e foi para Mumbai, na Índia. O FSM ganhou em diversidade e em internacionalização. A luta contra a guerra e pela paz esteve mais uma vez no centro dos debates, mas a novidade mais importante foi a participação massiva de movimentos sociais e actores políticos que não haviam participado dos três fóruns anteriores em Porto Alegre. Mas não foi meramente o deslocamento para a Índia que garantiu o êxito desse processo de internacionalização. Antes de Mumbai, dezenas de fóruns regionais e temáticos foram realizados em diversos países e continentes, incorporando cada vez mais novas organizações e temas ao universo do FSM, que se consolidou como um movimento de carácter global, com crescente capacidade de articulação política.

A luta contra o Império
Mas esse crescimento não foi apenas quantitativo. Na quinta edição do Fórum, que retornou a Porto Alegre, em 2005, a evolução política qualitativa do movimento altermundista ficou evidente. Essa evolução manifestou-se pelo amadurecimento de propostas concretas para a construção de um outro modelo de globalização, uma globalização solidária dos povos e não exclusivamente do capital. Um grupo de intelectuais e movimentos sociais lançou a Carta de Porto Alegre, apresentando propostas nesta direcção. Ao todo, foram apresentadas 352 propostas das mais diferentes organizações do planeta. De um espaço de contraponto ao Fórum de Davos, o FSM tornou-se definitivamente um espaço de construção de propostas, passando da resistência e dos protestos à elaboração de alternativas. Totalmente autogestionadas, as actividades de 2005 deram um vigoroso impulso às mobilizações contra a política imperial dos EUA, implementada pelo governo de George W. Bush.
Em 2006, essa luta deve ganhar contornos ainda mais nítidos, com a articulação entre movimentos sociais e governos de esquerda para a criação de uma frente internacional anti-imperialista. No dia 18 de Janeiro, na véspera da abertura do Fórum de Mali (19 a 23 de Janeiro), em Bamako, será realizada a Jornada Internacional sobre a Reconstrução do Internacionalismo dos Povos e da Frente Anti imperialista”. A mesma pauta será discutida, de 24 a 29 de Janeiro, no Fórum de Caracas. De 2001 a 2006, evoluiu a consciência de que a luta pela construção de um “outro mundo” passa, necessariamente, pela luta contra as políticas imperiais dos EUA e de seus aliados, que vêm aumentando dramaticamente a instabilidade política, social e ambiental no planeta. A luta anti-Davos gerou uma agenda própria, mas a implementação dessa agenda em carácter global assume cada vez mais o carácter de uma luta contra o Império, que tem nome, sobrenome e sede própria.
A participação e o recado da juventude
A evolução quantitativa e qualitativa da agenda política do Fórum Social anda de mãos dadas com um fenómeno que desmente, de diferentes modos, os ideólogos do fim da história e da política: a impressionante participação da juventude. Os acampamentos internacionais realizados nas edições dos FSM revelaram uma inegável vontade de participação política.
Revelaram, por outro lado, o desgaste das formas tradicionais de fazer política. O recado aos partidos políticos de esquerda é muito claro: ou mudam – e mudam profundamente -, ou se tornarão estruturas obsoletas do ponto de vista daqueles que vêem o FSM como um espaço para a construção de políticas alternativas à ordem global dominante. A juventude que participa desse movimento já deixou bem claro também que não vai ficar esperando sentada por essas mudanças. Nos acampamentos e nos diversos espaços do Fórum, trabalham pela construção de alternativas aqui e agora.
O movimento do software livre, a adopção de práticas de construção e gestão ambientalmente sustentáveis, a valorização da autogestão como prática organizativa são algumas das novidades, cujos actores têm uma faixa etária de vinte e poucos anos.
A necessidade de expressão política e cultural manifesta-se de um modo cada vez mais diversificado. Entender o significado mais profundo dessa tendência é outro elemento que desafia as formas tradicionais de representação e acção política. A política não morreu e a história não acabou. Mas é preciso despertar do sono dogmático que parece dominar muitos agentes políticos que, no discurso, defendem o ideal do FSM, mas, na prática, comportam-se como zumbis a repetir grunhidos que não são mais ouvidos pela imensa massa de jovens que participa, em número crescente, dos encontros altermundistas que se multiplicam pelo planeta. A história do FSM deixa isso bem claro para quem quiser ver e ouvir.

Marco Aurélio Weissheimer
Periodista brasileiro. Jornalista brasileiro

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